Como raspar o cabelo tem se tornado uma forma poderosa de exercer a feminilidade

23/08/21

Cabelo comprido é uma paixão nacional. Quem nunca deu uma choradinha após o cabeleireiro cortar mais que os dois dedinhos prometidos ou precisou consolar uma amiga que passou por isso? Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, nosso tradicional apego às madeixas longas está ligado ao fato de que, por aqui, elas significam beleza, sensualidade, juventude, feminilidade e muitos outros atributos positivos associados ao feminino.

“Em outras culturas que eu pesquiso, a alemã por exemplo, isso não acontece”, relata a autora de uma série de livros que revolucionou o estudo do corpo, da mulher e da sexualidade no Brasil. “É muito raro ver uma alemã, principalmente depois dos 30, 40 anos, de cabelo comprido. Passei um tempo lá e, quando via uma mulher com os fios longos, já sabia que era uma brasileira”, comenta.

No entanto, parece que essa realidade vem se transformando no nosso país. Não só o interesse por cortes mais curtos tem aumentado na última década, como algumas mulheres estão indo no extremo oposto da sensação nacional e passando a máquina. Isso mesmo. A pandemia, os salões fechados e uma série de outras questões que se mostraram mais urgentes no último ano fizeram bastante gente desapegar por completo dos fios compridos e se entregar ao cabelo raspado.

A criadora de conteúdo Maqui Nóbrega faz parte dessa turma. “Foi a união de uma vontade que eu já tinha com um cabelo que estava precisando de um recomeço”, conta. Sem ter como ajeitar as mechas quebradas após anos de descoloração – ela é adepta das cores fantasias e do platinado há tempos –, em abril do ano passado, pegou a tesoura e a máquina e fez sozinha em casa a sua transformação.

“Quando me vi no espelho pela primeira vez, pensei: ‘por que não fiz isso antes? Por que demorei tanto?’ Gostei muito e imediatamente fiquei muito feliz”, relembra. De lá para cá, Maqui tem oscilado entre pixies de diversos tamanhos, e essa sensação só foi evoluindo para melhor. “A vida agora é uma outra vida. Você está sempre pronta, não precisa ficar planejando quando vai lavar o cabelo, se ele vai estar limpo em determinada situação. Agora faço o que eu quiser, na hora que eu quiser.”

A consultora de estilo Thais Farage teve uma motivação parecida, mas não se apaixonou de cara pelo visual raspado. “É muito diferente. A gente se olha a vida inteira de cabelo, mesmo que curtinho, sempre tem uma moldura em volta do rosto, né? Raspado não tem, é a face em primeiro plano”, avalia.

Era mais uma questão de se entender com aquele novo look – que com o tempo, e com a combinação com truques de estilo como gola alta, capuz e brinco assimétrico, passou a achar bonito –, mas imediatamente uma percepção positiva se fez presente. De cara, Thais achou cool, moderno e se viu um mulherão.

“Acredito que teve um impacto muito legal na minha autoestima me curtir de outros jeitos, me sentir feminina sem ter um cabelão. Fiquei mais afim das sutilezas, dos detalhes.” Maqui também sentiu essa força. Ela conta que quanto mais se afasta dos padrões de beleza tidos como femininos, mais bonita e livre se sente.

“Muitas mulheres viram que seu estilo de cabelo poderia ser um que ajudasse, não que atrapalhasse” – Mirian Goldenberg

Para Mirian, esse é um sentimento compartilhado por cada vez mais mulheres. “Simbolicamente, se desprender da ditadura da feminilidade, da beleza, do cabelo longo, escovado, pintado, perfeito, é uma forma de libertação para muitas”, diz. A antropóloga acredita que a pandemia apenas acelerou um processo que já vinha acontecendo, uma vez que estabeleceu outras prioridades que mostraram que se preocupar demais com os fios não deveria ser uma urgência. “Muitas viram que seu estilo de cabelo poderia ser um que ajudasse, não que atrapalhasse. Que não fosse um problema, mas uma solução”, analisa.

A fotógrafa Bruna Valença é outra que entrou na onda. “O que posso dizer é: aquele clichê de ‘é libertador’ é a mais pura verdade. Não parava de rir enquanto raspava, o riso se estendeu para o primeiro banho e segue até agora no rosto”, comemora. A modelo Giulia Dias deu adeus para as madeixas que iam até a cintura em abril do ano passado, e desde então vem exibindo feliz seus fios raspados e platinados. Já a cantora Mc Rebecca adora variar de visual com perucas Laces, mas adotou o corte raspado em dezembro no cabelo natural, e volta e meia reaparece com ele.

É interessante ver que nesse mesmo impulso causado pela quarentena, muitas mulheres também assumiram os fios brancos, ressignificaram a depilação, deixaram para trás o alisamento químico, redescobriram o formato das suas sobrancelhas… Uma série de mudanças que estão muito mais atreladas a se conhecer melhor e entender suas prioridades para além do que as pessoas ao redor estão dizendo que é belo, do que deixar de se sentir plenamente mulher. Pelo contrário. É nesse encontro com suas próprias vontades e possibilidades de se ser que a força feminina parece florescer com mais potência.

E apesar da quarentena ter dado um empurrãozinho para quem vinha namorando a ideia de desapegar do cabelão, algumas mulheres se encontraram há tempos nesse visual cheio de personalidade. A modelo Fernanda Esteves, por exemplo, adotou o look há 9 anos, e há 3 platina os cabelos curtinhos. “Me identifiquei com esse corte e com a cor. Sinto que fui feita 100% para ele”, relata, apesar de não deixar de brincar com perucas Laces de vez em quando.

Outras musas como a artista Lili Am e a modelo Cris Paladino – que mais recentemente abraçou as tranças de aplique após 4 anos “carequíssima” –, também já vinham há tempos ostentando os fios raspados, transmitindo autoconfiança, sensualidade e a mensagem de que cabelo foi feito para a gente usar como quiser, quando quiser. E o look deve ganhar um espaço ainda mais mainstream com a volta do seriado Gossip Girl, que marcou época e ganhou versão atualizada para os tempos de hoje. Uma das protagonistas, adivinhe só, tem cabelo raspado.

A quarentena acelerou uma série de mudanças que estão muito mais atreladas a se conhecer melhor, do que a deixar de se sentir plenamente mulher

Cabelo raspado também precisa de cuidados

A praticidade tão exaltada por Maqui é real. Raspar os cabelos é cortar, literalmente, pela raiz a necessidade de investir em centenas de máscaras, ampolas, leave-ins e afins para tratá-los. Também fica de lado o tempo em frente ao espelho ajeitando os fios toda vez que for sair de casa. No entanto, um novo cuidado deve entrar na rotina: “É preciso ter atenção principalmente com o couro cabeludo, que acaba pegando muito sol”, aponta Fernanda.

Porém não vá sair passando o mesmo produto que usa no corpo ou no rosto! Existem protetores solares específicos para a região – que, inclusive, podem (e devem) ser usados por quem mantém as madeixas mais compridas para proteger os fios da radiação. Além do risco de queimadura, o fator câncer de pele também precisa ser levado em consideração e essa proteção deve ser diária, já que é uma área onde o sol bate diretamente. Atenção dobrada caso esteja planejando um dia na praia, na piscina ou no parque: como a radiação é intensa, o ideal é incluir um chapéu ou bandana no look.

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{Fotos: reprodução Instagram}

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