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Tempo para o aplauso

08/01/26

Antes de recomeçar, dar-se o devido tempo para enaltecer a própria trajetória.

Antes de recomeçar, dar-se o devido tempo para enaltecer a própria trajetória

Gosto de ir ao teatro para tirar férias do meu próprio enredo. Sou do tipo que ri alto ou chora compulsivamente, protegida pelo escuro da plateia. Enquanto os atores estão em cena, deixo minha vida de lado e entro na trama. Desapareço por alguns instantes, junto com a minha realidade. Assistir a uma peça é um exercício de entrega, um recurso para não deixar a vida cair no automático.

Quando o espetáculo termina, entro em cena com o resto da plateia. A hora do aplauso é a deixa para o público, o momento em que expresso o quanto fui tocada pela verdade da história, como sofri e me apaixonei junto com os personagens. Celebro ali não o fim, mas o acontecimento. Rendo minhas homenagens a quem se expôs e sustentou o papel até o final. Confesso o que me arrebatou. Aplaudo para estender meu alumbramento, para que o sentimento não me escape. Preencher o teatro com o barulho das palmas é a esperança de eternizar o que me atravessa.

Num momento raro de presença, o diálogo entre público e palco opera a mágica de fazer o tempo parar. E fazer o tempo parar é um gesto cada vez mais raro.

Numa sociedade em que tudo é acelerado, a virada do calendário parece ainda mais apressada. Uma correria que vem de fora cobra de nós o próximo ato, o próximo plano, a próxima versão de nós mesmos. Fazemos listas, metas, promessas — como se o que passou tivesse sido apenas um ensaio geral. 

A ideia de recomeçar é tão atraente quanto enganosa. A cultura do descartável convida a eliminar e esquecer o que foi vivido, como quem joga fora uma folha de rascunho sem valor. A ideia é de ruptura, não de construção. Uma crença infantil de que tudo vai ser diferente porque será inédito.

Fascinados por datas e limites imaginários, romantizamos os começos e demonizamos os fins. Apressamo-nos em desistir do que estava em curso em nome do que está prestes a começar. Como se um estivesse desconectado do outro. Como se o valor morasse sempre no que ainda não chegou, nunca no que nos sustentou até aqui. Como se as falhas do ano passado fossem provas de incompetência, e não da vida acontecendo.

Há um drama nos desfechos que faz a vida parecer mesmo um espetáculo. Mas, se a ideia é trazer para a realidade a magia da ficção, deveríamos começar pelos aplausos. Dedicar um tempo para sentir, sem anestesia. Reverenciar, agradecer, celebrar o que passou — antes de abrir novamente as cortinas.

Nenhum novo ato começa do nada. Ele nasce do palco que já foi pisado. O que ficou não é entulho, é fundamento. Segue conosco no que nos lapidou e transformou.

O gesto de grudar os olhos na tela do celular tem o mesmo sentido — e o mesmo perigo. O novo que está na tela parece mais precioso do que a vida que acontece do lado de cá. Cabe a cada um traçar o limite entre a vida de verdade e a imagem idealizada. Entre a imperfeição do que passou e a idealização do que ainda não aconteceu.

O tempo não pede perfeição. Pede presença.

Mais do que abrir as portas para um feliz ano novo, é hora de dar adeus às fantasias infantis. Ninguém chega inteiro a janeiro. Chegamos remendados. Recomeçamos exaustos. Com marcas e lembranças que preferíamos não carregar. Viemos da vida, não de um roteiro de ficção.

As coisas das quais nos arrependemos. As que gostaríamos que jamais tivessem acontecido. As que sonhamos muito e não vieram. As pessoas que perdemos, as que escolheram se afastar, as que deixamos para trás. Tudo isso também nos constitui. Recomeçar não é começar do zero, não é apagar. É continuar, só que com mais consciência.

Antes de pedir mais do tempo, é merecido olhar para o ano que nos machucou, mostrou limites, revelou forças que nem sabíamos ter. Aplaudi-lo não é romantizar dificuldades nem ignorar erros. É reconhecer o esforço invisível. As cenas improvisadas. Os dias em que o roteiro saiu do controle e, ainda assim, você sustentou o seu papel. Quantas vezes você continuou, mesmo sem saber como terminar aquele ato? Quantas vezes o aplauso não veio, mas você ficou até o fim?

As palmas não são para o resultado. São para a travessia. É o momento em que você finalmente se sente visto. A prova de que alguém testemunhou sua entrega — mesmo que seja você mesmo.

Reconheça as versões de você que deixaram o palco assim que o ano terminou. Celebre cada uma delas. Levante-se para aplaudir.

O ano que passou é chão para o que começa agora. Um piso firme e real, também para lembrar que 2026 não precisa ser palco para promessas impossíveis. Pode ser espaço para ajustes reais: errar melhor, aprender mais rápido, descansar sempre que for preciso. Recomeçar não precisa ser grandioso; pode ser honesto e simples. Comer melhor, aprender a pedir ajuda, colocar intenção no que faz. Parar de insistir no que já não faz sentido. Dizer não sem culpa ou sim sem medo. Apostar menos: menos pressa, menos comparação. O tempo não pede perfeição, pede presença.

Em Alter do Chão, no Pará, os passeios são organizados em torno do pôr do sol. Na segunda metade do ano, quando as águas baixam e diversas praias se formam no leito do rio Tapajós, o barqueiro que conduz o passeio provavelmente vai perguntar, ou até sugerir: em que ponta você quer ver o sol se pôr? Essa peculiaridade do lugar que abriga um dos maiores volumes de água doce do mundo me ensinou sobre a importância de honrar, não os começos ou os fins, mas o espetáculo.

Talvez o aplauso seja o nosso jeito de tornar único aquilo que acontece todos os dias. Que se repete, mas nunca da mesma forma. O que o faz especial não é o ineditismo, mas nossa atenção e intenção. Nossa verdadeira presença.

Feliz 2026.

Cris Pàz é colunista do Dia de Beauté, onde publica mensalmente sobre beleza e longevidade. Publicitária premiada e escritora com oito livros publicados, ela nasceu em 1970 e é uma das precursoras da produção de conteúdo digital no Brasil. Colunista da rádio BandNews FM de BH, comanda o podcast 50 Crises (entre os destaques de 2020 no Spotify Brasil) e traz novos olhares sobre saúde mental, protagonismo feminino, maternidade, moda e longevidade por meio de suas redes e palestras.

{Fotos: Julia Volk e Ron Lach/ Pexels}

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