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Delicada e perigosamente. Eles estão doentes, mas nós é que morremos

18/12/25
Delicada e perigosamente. Eles estão doentes, mas nós é que morremos.

Foi no começo do ano, em Belo Horizonte. Eu mediava uma conversa com a jornalista Daniela Arrais, que lançava seu livro Para todas as mulheres que não têm coragem. Sócia da plataforma Contente, Daniela é uma dessas vozes que nos amplia o universo, sempre. Já era de se esperar que a simpática Livraria Jenipapo estivesse lotada de mulheres encantadas, munidas de seus exemplares e olhares atentos.

Em um dado momento, depois de responder a perguntas, a Dani sugeriu que cada uma escrevesse um pequeno texto em poucos minutos, inspirada por um exercício de escrita proposto na própria obra. Iniciou-se ali uma dança de livros abertos. Com sinceridade, poesia e alguma timidez, as mulheres confessavam seus medos e coragens, e o que vinha em seguida eram aplausos querendo ser abraços.

O sucesso do lançamento obrigara algumas pessoas a ficarem de pé no corredor da livraria. Sentadas à frente de uma plateia enfileirada, eu e Dani não podíamos ver todos os rostos. Depois de diversas leituras, nos surpreendemos ao ouvir uma voz masculina, adocicada por um tom de gentileza de quem se assumia estranho a um evento feminino por essência. Habilidoso, o homem abriu com facilidade os nossos ouvidos, citando a mãe e as irmãs como álibis de sua grande admiração pelas mulheres.

E o silêncio gentil de dezenas de espectadoras serviu de tapete vermelho para suas linhas, que se esticaram por bem mais do que os minutos propostos pela autora. O que aquele sujeito supostamente havia escrito ali mesmo, e que no início prenunciava um estilo literário acima da média, foi perdendo o sentido à medida que o tempo passava. Sequer me lembro do tema do seu texto, mas as entrelinhas eram claras o suficiente para se tornarem inesquecíveis: do alto de sua erudição calculada, o maldito fruto manteve aquelas mulheres por algo em torno de dez minutos, apoiado na certeza de que seríamos educadas demais para interrompê-lo. Sufocadas entre o constrangimento e a etiqueta, nos vimos em uma espécie de sarau de único autor, para o qual nenhuma de nós tinha sido convidada.

Agradecida por não estarmos num auditório, fiz do meu palco esconderijo. Se eu não podia ver o homem, supus que também não estava ao alcance dos seus olhos. Fitando o chão, me encolhi na cadeira até encontrar refúgio na pilha de livros ao meu lado. Catei um deles e enfiei a cabeça numa página qualquer, tentando achar um parágrafo onde eu pudesse desaparecer. 

Em algum momento aquilo tudo terminou, nenhuma de nós sabe dizer como, mas enfim pudemos respirar. 

“Bastaram alguns minutos para entendermos como a gentileza também pode ser uma forma de violência.”

Eu poderia dizer que o episódio, cujo cenário girava em torno de um livro com a missão de encorajar mulheres, teria sido uma demonstração quase didática sobre a coragem masculina. Mas o que aquele homem fez foi violência. Opressão disfarçada de apreço e devoção. E deve ter saído dali convicto de que seria o assunto da noite na casa de cada uma das mulheres na plateia — no que provavelmente acertou. 

O que ele certamente não calculou, ao menosprezar nossa perspicácia, é que naqueles instantes de eternidade todas nós lemos com clareza a ilustração burlesca de quanto os homens ainda se sentem à vontade para silenciar vozes femininas, como se ainda vivêssemos no Século XIX. Passamos séculos decorando a ladainha, tivemos tempo para o letramento.

Por outro lado, nesse mesmo período os homens precisaram se mover pouco ou quase nada. Enquanto ampliamos nossa participação no mercado de trabalho, conquistamos autonomia financeira e a liberdade para decidir sobre nossos corpos e nossas vidas, são exceções os que compreenderam a dinâmica dos acontecimentos, e menos ainda os que tentaram se situar em meio a ela.

O mundo mudou e a ideia de ser homem não acompanhou as transformações. Minto: o homem não acompanhou. Foi uma escolha, não uma fatalidade. Enquanto a masculinidade ainda se ancora em prover e exercer autoridade, mesmo quando isso já não encontra correspondência na realidade social, econômica e afetiva do presente, a mulher não teve alternativa senão seguir se transformando.

Há séculos as mulheres se agasalham. Se escutam, se nutrem, se ajudam. Revezam-se. Não deixam ninguém para trás. Tocam suas feridas, admitem dores, constroem força com o tecido de suas vulnerabilidades. Não conhecem zona de conforto — e talvez por isso não se dêem ao luxo da estagnação.

Enquanto isso, homens fazem guerras. Agarram-se a qualquer brecha para preservar um modelo de masculinidade ultrapassado, acreditando que ali está sua fortaleza, quando é justamente a ameaça. Não por inocência, mas por recusa: mantêm os olhos atentos aos defeitos do mundo e desviam o olhar de si mesmos. Por não se julgarem no direito de sentir, sequer nomeiam as próprias emoções. E essa confusão semântica escorre para as atitudes.

Com a saúde mental apoiada na dependência emocional de uma figura feminina e pressionados por um ideal de desempenho impossível, muitos homens projetam na mulher o inimigo que não ousam reconhecer em si. Qualquer contato com a fragilidade ameaça a própria identidade. É como alimentar uma doença autoimune: o corpo passa a atacar a si mesmo — e quem estiver por perto.

A masculinidade não se transformou com a sociedade. O resultado são homens adoecidos que evitam contato com suas próprias questões, como se ignorá-las fosse uma forma de cura. Não é preciso metáfora sofisticada: é o homem que foge do médico, dos exames, do diagnóstico. O problema é que esse autoengano não fere apenas quem o pratica.

“O mundo mudou e a ideia de ser homem não acompanhou. Minto: o homem não acompanhou. Foi uma escolha, não uma fatalidade.”

Em vez de romper o silêncio em espaços onde poderiam elaborar medos e inseguranças, muitos homens encontram abrigo em grupos digitais onde a misoginia e o ódio às mulheres são princípio organizador. Nem sempre é uma escolha ativa — o algoritmo se encarrega do convite. Assim, uma doença masculina segue produzindo vítimas femininas. Não é coincidência: é padrão.

Dados do Ministério da Saúde, da ONU Mulheres, do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 73% dos homens associam seu maior valor a ser provedor; 67% não falam sobre sentimentos com amigos; 61% não se sentem à vontade para pedir ajuda quando estão mal. O resultado

aparece nas estatísticas: homens são maioria absoluta entre autores de homicídio e entre vítimas de suicídio. E, ainda assim, 60% dos homens heterossexuais dizem ter na parceira sua única fonte de afeto.

O que aprendi com a anedota que contei no início é que, com delicadeza suficiente para não levantar suspeitas, esse modelo ultrapassado de masculinidade vai alargando seus domínios. Disfarça responsabilidades, simula autocrítica e usa o espelho apenas como retrovisor — para vigiar. Faz da sutileza uma arma silenciosa, que prepara o terreno para ataques mais contundentes.

Foi com suposta preocupação profissional que um chefe sugeriu que eu voltasse da licença-maternidade quando meu filho tinha 45 dias, interrompendo um processo bem-sucedido de amamentação. Com voz doce, um namorado propôs que eu colocasse silicone para que assumisse nosso relacionamento. A gentileza de um empregador precedeu um convite para jantar. A falsa civilidade de um ex-companheiro mascarou controle, vigilância, acusação.

Há uma distância mínima — quase invisível — entre a vida cotidiana e o primeiro gesto violento. Entre exaltar mãe e irmãs e calar dezenas de mulheres. Entre elogio e assédio. Entre cuidado e controle. Entre um incentivo profissional e o assédio moral. Entre um pedido para voltar e quatro tiros fatais.

Demorei anos para reconhecer atitudes normalizadas pelo machismo que também habita em mim. Depois de abrir os olhos, é impossível voltar a fechá-los. O feminismo existe para ampliar a consciência — de mulheres e de homens. Mas poucos entenderam que acordar desse pesadelo é libertador para ambos.

Poucos, como o homem de um clube do livro recente, que confessou ouvir do amigo que terapia “não é coisa de homem”. Diferente do cara que o ridicularizou, ele estava ali para escutar. Diferente do homem que monopolizou a palavra no lançamento do livro da minha amiga, estava disposto a aprender. 

Há homens raros, sim. Eles existem. Poucos e bons, tentam desmontar valores que carregam sem perceber. Valores que os adoecem, sequestram sua humanidade e empobrecem suas relações.

Eles existem. Difícil é distinguir uns dos outros. E é justamente esse letramento — urgente e delicado — que nos cabe agora aprender.

Cris Pàz é colunista do Dia de Beauté, onde publica mensalmente sobre beleza e longevidade. Publicitária premiada e escritora com oito livros publicados, ela nasceu em 1970 e é uma das precursoras da produção de conteúdo digital no Brasil. Colunista da rádio BandNews FM de BH, comanda o podcast 50 Crises (entre os destaques de 2020 no Spotify Brasil) e traz novos olhares sobre saúde mental, protagonismo feminino, maternidade, moda e longevidade por meio de suas redes e palestras.

{Fotos: Евгений Качин e Nur Yilmaz/ Pexels}

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