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Agora que temos a mesma idade – seus 55 anos e os meus

15/08/25
Agora que temos a mesma idade Seus 55 anos e os meus

Hoje eu completo 55 anos, Mãe. O tempo que você teve de vida. Desde o meu último aniversário, me emociono ao me ver com a mesma idade que você. Agora podemos conversar, como duas mulheres maduras. 

Faz tanto tempo, Mãe. Às vezes preciso inventar você na minha lembrança. Em outras, te vejo no espelho: muita gente diz que me pareço com você. Não sei se é verdade ou vontade, mas até eu me assusto. Acho que é mais o jeito, o cabelo curto. Talvez o barulho da risada. Não tenho sua beleza, mas sinto em mim a alegria criança que te fazia sempre menina. 

Como você, já inventei de usar o cabelo branco, sob o olhar um pouco assustado das minhas irmãs mais velhas. Aliás, eu mudo a cor do cabelo quando dá na telha. E não abro mão da tesoura. Você há de concordar comigo, cabelo curto é tempo livre pra pensar e fazer outras coisas, e o que não me falta é coisa pra fazer. Não me orgulho disso, Mãe. Faz algum tempo que deixei de achar graça em estar ocupada o tempo todo. Me esforço pra desaprender. 

Também montei minha própria caixa de ferramentas. Sei furar uma parede quando preciso. O acabamento não fica muito bom. Pra instalar o chuveiro, eu contrato um eletricista. Prego um ou outro botão, mas pra fazer bainha numa calça eu recorro à costureira perto de casa. Gosto de coisas bem-feitas, como você me ensinou. Mas dispenso a autoria. Nem tudo precisa ser feito por mim, Mãe. Aliás, quase nada. 

Dirijo bem, sou boa de baliza, mas não rodo 10km sem o GPS. Você adoraria o mundo com internet, Mãe. Sabe aquele mapa da cidade que você tinha na cabeça? O Google Maps sabe de cor, e com vantagens: ele nos manda pelo caminho mais rápido, porque sempre sabe onde tem menos trânsito. Talvez você discordasse dele. Talvez não. Talvez descobrisse rapidinho como é bom não ter que pensar em tudo. 

Me alegro também pelas coisas que você não viu. O mundo anda esquisito demais. Não me conformo, tento fazer alguma coisa, mas entendo o meu tamanho. Saber da minha pequenez me alivia. Talvez eu esteja sábia, enfim.

“Saber da minha pequenez me alivia.”

Sou nada no mundo, sentindo coisas tão grandes. Uma saudade que chego a poder tocar. Um amor pela vida, pelo meu filho e por todos nós, que sempre me emociona. 

Aprendi, a duras penas, que não estou no controle — e isso é libertador. Estou ciente de que viver mais é vivenciar ainda mais lutos. Não vai doer menos só porque já passei por isso, pelo contrário. Mas sei que sobrevivo.  

Com a idade, o dicionário se atualiza. Felicidade é uma palavra muito pretensiosa. O conceito de sucesso muda muito à medida que o tempo passa. 

Não sei fazer meu imposto de renda, nem quero aprender. O tricô, passo adiante. Na hora de comprar, eu presto atenção no arremate, no avesso da peça. Nunca é igual ao seu. Paciência. Quando coloco um prato na lava-louça, me lembro de você. Se eu sempre disse que não fazia sentido enxugar copo por copo, talher por talher, hoje o que não faz sentido é eu mesma lavar. Francisco faz o almoço algumas vezes. A comida dele é melhor do que a minha. Dividimos as tarefas sem muitos conflitos, num balé silencioso que eu até aprecio. Cuido da casa sem sofrimento, mas não abro mão de cuidar de mim.

Durmo mais cedo, já não viro a noite trabalhando — e nem daria conta. Frequento a academia e gosto. Se precisar dar um cochilo no meio do dia, faço com gosto. Ser autônoma tem dessas vantagens. 

Digo muitos nãos. Só falta encurtar as justificativas, mas venho caminhando. Quero mesmo é chegar ao nível de dizer não e ponto, sem explicação. Eu chego lá.

Já fui a Paris algumas vezes — por você e por mim. Quero voltar muitas outras. 

Quando vou ao supermercado, o primeiro item que vai para o carrinho é meu queijo de cabra. Me priorizo com gosto, desde muito antes do nascimento do Francisco. Talvez tenha sido a primeira lição que a sua falta me trouxe. Perder mãe deveria ser nunca. Mas me ensinou a ter mais de mim mesma. 

“Aprendi, a duras penas, que não estou no controle — e isso é libertador.”

Saber me priorizar me ajudou a criar o Fran. Como você, ele não teve tempo de conhecer o pai. Mas tem uma mãe que nunca abriu mão de se divertir. Custo a imaginar, Mãe, como você educou cinco filhos. Você também se assustaria com meus cinco casamentos. O que me assombra mesmo é ficar numa relação ruim.

Acho tão estranho ter ficado viúva nas mesmas circunstâncias que a Vovó. Em algum ponto, a gente precisava se encontrar. Foram muitas perdas, mãe. Perder você foi a lição de estreia. E quando o pai do Fran se foi num instante, estranhamente eu estava preparada. Só não sabia. 

No mês passado, a Preta Gil morreu, semanas antes de completar 51 anos. Pensei tanto em você. Pensei no Francisco dela, nesse divisor de águas que é perder a mãe e seguir em frente.

Que bom seria você estar aqui com a gente, curtindo cada passo, afagando cada dor. Sua presença me ensinou tanto. Sua ausência me ensinou sobre mim. No sim e no não. No que sobrou e no que faltou, principalmente pra você mesma.

Conquistei muitas coisas, Mãe. Desisti de tantas outras. Só não desisto de mim. A vida é curta, mãe. Como o meu cabelo e o seu. A vida é agora, não amanhã. Não acontece no futuro ou no passado. A vida é gerúndio, mãe. É o tempo em que escrevo essa carta. E é bonita, sim. 

Não vai dar tempo de fazer tudo, eu sei. Não tivemos tempo para tantas coisas. Mas que sorte estar ao seu lado no seu último suspiro. Que linda foi sua vida. Aprendi com seus acertos, aprendi com seus erros. 

Quando o Fran tem febre e eu sei só de encostar, sem precisar do termômetro. É você em mim. Já não sou menina há tanto tempo. Mas a minha saudade nunca deixou de ser criança.

Estranho é que uma calma inédita me acompanha agora. Temos a mesma idade, enfim. A partir de hoje, vivo por você também. E ainda mais por mim. 

Cris Pàz é colunista do Dia de Beauté, onde publica mensalmente sobre beleza e longevidade. Publicitária premiada e escritora com oito livros publicados, ela nasceu em 1970 e é uma das precursoras da produção de conteúdo digital no Brasil. Colunista da rádio BandNews FM de BH, comanda o podcast 50 Crises (entre os destaques de 2020 no Spotify Brasil) e traz novos olhares sobre saúde mental, protagonismo feminino, maternidade, moda e longevidade por meio de suas redes e palestras.

{Fotos: Luiza Villarroel e Aditya Aiyar/ Pexels}

Comentários

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2 respostas em “Agora que temos a mesma idade – seus 55 anos e os meus”

Oii, sempre acompanho suas histórias de vida, lindas😊 perdi minha mãe a quase 9 anos,tinha 72,saudades,tenho muito dela, não na aparência kkk
Me encaixo em algumas de suas entrelinhas, preciso aprender a não me justicar tanto kkk
Me emocionei muito com seu texto 🥰
PARABÉNS!! VIDA LONGA!!!🎂SUCESSO 💫😘

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