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Beleza: de onde viemos e para onde estamos indo

31/07/25
Beleza: de onde viemos e para onde estamos indo

Nos últimos tempos, quanto mais se fala sobre viver mais, mais evidente fica a distância entre a ideia de longevidade e o comportamento que ainda guia a indústria da beleza. Enquanto surgem tecnologias que prometem estender nossa vida ano após ano, seguimos presos a fórmulas de curto prazo que nos empurram para intervenções cada vez mais agressivas. O tal do GLP-1, hormônio que encontramos em medicamentos como o Ozempic (agora em suas múltiplas facetas, que cresce como tendência entre celebridades e usuários não diagnosticados com diabetes para fins de emagrecimento), talvez seja um dos retratos mais visíveis desse paradoxo. De um lado, comprimidos e injetáveis prometem uma nova versão de nós mesmos. Do outro, a própria imagem se torna estranha, quase impossível de sustentar sem mais um retoque, mais uma promessa, mais uma etapa de um ciclo que se repete.

A verdade é que estamos atravessando uma era de transição acelerada, onde o tempo se encurta mesmo quando falamos em viver mais. Um superciclo tecnológico nos cerca, reconfigurando as estruturas com que lidamos com saúde, identidade e bem-estar. A pele, esse órgão que sentimos, mostramos e muitas vezes escondemos, se torna palco de todos esses embates. Carrega os sinais do que somos, mas também os traços do que buscamos reverter. Envelhecer hoje é uma equação entre o que se aceita e o que se tenta apagar. E talvez seja justamente aí que a beleza precise ser olhada com mais cuidado.

Muitos dados nos mostram o avanço da expectativa de vida, o crescimento do mercado de wellness e o interesse cada vez maior por biohacks e epigenética. Mas a pergunta que insiste é outra. Que tipo de vida estamos querendo prolongar? E o que exatamente significa se sentir bonito ao longo dessa vida? À medida que vivemos mais, também queremos nos sentir bonitos por mais tempo. Mas será que estamos preparados para encarar essa beleza que se transforma com o tempo ou ainda a restringimos a um ideal que parou nos vinte e poucos anos?

Em momentos assim, é inevitável revisitar o que construímos até agora. Quando Carlota Rodben escreveu Beauty As It Is, ainda em 2019, pré-pandemia, o mundo era outro, mas a inquietação que ela trouxe continua atual e na minha visão é um dos livros mais consistentes para se falar da indústria. A forma como falamos de beleza, o tipo de indústria que queremos sustentar, a responsabilidade que temos como comunicadores, tudo isso volta à superfície. Seguimos falando de inclusão, de autenticidade, de saúde mental. Mas também seguimos alimentando fórmulas que nos afastam do próprio corpo. Seguimos desejando a longevidade, mas nem sempre estamos dispostos a repensar o que isso exige de nós.

Envelhecer hoje é uma equação entre o que se aceita e o que se tenta apagar.

Talvez seja o momento de fazer perguntas mais profundas. Não apenas sobre o que vendemos ou consumimos, mas sobre o tipo de linguagem que usamos, as referências que ainda repetimos, os silêncios que deixamos passar. A informação está aí, acessível, democratizada. O que falta não é conhecimento, mas presença. Falta pausa. Falta escuta real entre marcas e consumidores. Falta coragem para romper o imediatismo travestido de autocuidado.

Ao observar movimentos como o da Rare Beauty ou da Rhode, fica claro que há caminhos possíveis. Caminhos que colocam a escuta no centro, que reagem com humildade, que se constroem a partir de uma relação mais afetiva com o tempo e com os outros. Mesmo marcas como Vacation, com sua abordagem leve e nostálgica, mostram que é possível traduzir bem-estar em linguagem acessível, sem abrir mão da relevância. E talvez essa seja uma das maiores mudanças que estamos vendo surgir: a compreensão de que beleza não precisa estar atrelada a sacrifício, nem a um ideal universal. Que ela pode ser expressão, pausa, memória, relação.

Viver mais exige mais do que longevidade biológica. Exige revisitar os motivos pelos quais queremos viver tanto assim. Porque se a ciência já nos mostra que grande parte da nossa saúde na velhice depende do modo como escolhemos viver hoje, então o mesmo vale para a forma como escolhemos nos perceber. O futuro da beleza está menos nas promessas de juventude eterna e mais na construção de um vocabulário mais honesto, mais presente, mais humano.

Talvez o desafio agora não seja apenas acompanhar as mudanças, mas aceitar que algumas delas começam dentro. E que a beleza, nesse processo, pode deixar de ser um espelho do que nos falta para se tornar uma lembrança daquilo que já somos.

Carolina Soares, Consumer & Market Strategist. Tem 15 anos de experiência de mercado atuando com análise de tendências e insights, passando por empresas como Google e WGSN. Atualmente colabora como Head de Conteúdo e Inteligência de Negócios no Beyond Luxury Group, é colunista da plataforma Jing Daily, e também tem uma consultoria que atua em parceria com marcas e agências

{Fotos: Pexels}

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