Rapid Eye Movement

Fui a um médico para investigar minhas crises de asma. Ele pousou os olhos na sequência dos meus exames dos últimos anos e sentenciou: “A última vez que você dormiu bem foi em 2018”.
A data me pareceu coerente, mas a notícia me pegou de surpresa. A insônia foi um dos primeiros sintomas do meu climatério, e eu já estou na pós-menopausa. Talvez eu já estivesse habituada a conviver com o sono ruim. A frase do médico me despertou.
Comprei uma pulseirinha chinesa para monitorar o sono e instalei o aplicativo no celular. Se nunca suportei um relógio de pulso, passei a usar o meu até debaixo das cobertas.
Para responder à pergunta “Dormiu bem?”, passei a consultar o aplicativo. “5 horas e 27 minutos, só 23% de sono REM e ainda acordei quatro vezes. Pensando bem, tô exausta.” Comecei a duvidar de mim mesma.
Fiz ajustes na rotina pra deitar ainda mais cedo. Largava o celular às oito, às dez eu estava baixando as persianas. Óleo essencial, travesseiros por toda a cama, baixar a luz antes de deitar e, claro, melatonina, magnésio Inositol e o comprimido de progesterona. Meu ritual deixaria qualquer Morfeu de braços abertos.
Celular na gaveta, relógio no pulso, bateria carregada, tudo certo para cumprir a meta. Checar oralmente item por item era como rezar toda noite.
Acordava focada no objetivo de dormir bem.
Produzir um sono de qualidade se tornou obsessão. Acordava focada no objetivo de dormir bem. Bastava uma nota baixa para piorar o sono seguinte. Impiedoso, o aplicativo me humilhava toda manhã. Minha maior fonte de ansiedade era o próprio sono.
Um dia, finalmente, alcancei a incrível marca de 87 pontos. “A qualidade do seu sono ontem à noite foi excelente”, li em voz alta, como quem ergue um troféu. “Você adormeceu muito tarde”, arrematou meu Capitão Nascimento virtual.
Minha vida social se encerrou desde então. Ajustei o horário para me deitar ainda mais cedo. Despertava no meio da madrugada, preocupada por não dormir. Comecei a ter pesadelos. Olhos que não se fechavam, cochilos no meio de reuniões de trabalho, palestras em que eu me flagrava de pijama em pleno palco. Notar meu reloginho sem bateria era mais frustrante do que ficar sem celular.
Meus dias tornaram-se improdutivos. A criatividade não queria saber de acordar. Na economia da performance, nem um sono que se preze eu estava conseguindo produzir. Logo eu, que sempre fui boa de cama. Ou pensava que era — até o relógio chinês me contar.
O médico solicitou uma polissonografia. Fui dormir em uma clínica na véspera de um feriado. “Uma suíte só pra mim”, planejei. Longe do celular, visualizei uma noite de pleno descanso. O cômodo de dois por dois, sem banheiro, lembrava uma prisão. Em lugar do ronco de algum companheiro de cela, meus inimigos eram os eletrodos, grudados por toda a cabeça e em algumas partes do corpo. Lá fora, o zum zum zum das carcereiras, digo, enfermeiras.
Rezei para aquela noite passar logo. Ignorei a vontade de fazer xixi para não ter que aceitar o recurso da comadre. “Não há mal que sempre dure”, pensei ao acordar, minutos depois de finalmente adormecer.

Com os cabelos ensebados de cera, cheguei em casa como um filho pródigo. Avistei minha cama, o privilégio do edredom quentinho, meu gato me esperando felpudo. Entendi então a profilaxia: aquele exame seria a minha cura. Como a história do sábio que aconselhou o homem com um problema a colocar uma vaca no meio da sala. Uma semana depois, quando retirou o bicho da sala, o homem descobriu que não tinha um problema.
Naquela noite, dormi como um anjo. O reloginho não teve a mesma opinião. Jamais peguei o resultado da polissonografia. Tive medo de nunca mais adormecer. Não me lembro de ter tido outras crises de asma. Talvez eu precise agora investigar a minha memória.
Cris Pàz é colunista do Dia de Beauté, onde publica mensalmente sobre beleza e longevidade. Publicitária premiada e escritora com oito livros publicados, ela nasceu em 1970 e é uma das precursoras da produção de conteúdo digital no Brasil. Colunista da rádio BandNews FM de BH, comanda o podcast 50 Crises (entre os destaques de 2020 no Spotify Brasil) e traz novos olhares sobre saúde mental, protagonismo feminino, maternidade, moda e longevidade por meio de suas redes e palestras.
{Foto: cottonbro studio e Aleksandar Cvetanovic/ Pexels}




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