Cinco mitos sobre o Lipedema

Você já ouviu falar sobre o lipedema? A condição, caracterizada pelo acúmulo anormal de tecido adiposo em certas regiões do corpo (especialmente nas pernas), apesar de não ser rara, ainda é pouco conhecida. Muitas vezes confundida apenas com gordura localizada ou celulite, pode causar dor, inchaço e até comprometer a mobilidade em casos mais graves.
O lipedema ganhou destaque especialmente no ano passado, quando Yasmin Brunet contou sobre seu diagnóstico e tratamento, apresentando uma questão até então desconhecida de grande parte do público. E sabemos da importância de alguém que tem alcance e influência para puxar conversas, né?
Junho Roxo
Atualmente, estima-se que o lipedema afete 10% das mulheres globalmente. No Brasil, esse número é igualmente preocupante, impactando cerca de 10 milhões de pessoas. Em junho, o mês dedicado à prevenção e conscientização do lipedema, busca-se aumentar a visibilidade da doença e o conhecimento público sobre ela.
Os sintomas mais comuns associados à condição são:
. Inchaços (edemas)
. Formação frequente de hematomas
. Cansaço
. Desconforto estético
. Sensação de dor e peso nas regiões afetadas
Para esclarecer alguns mitos ligados à condição, conversamos com a Dra. Juliana Tenorio, médica cirurgiã plástica referência mundial no tratamento do lipedema:
1 . “Lipedema só aparece nas coxas”
Essa é uma das concepções mais comuns — e perigosas — sobre o lipedema: ele pode surgir em diferentes partes do corpo, seguindo padrões de acordo com o paciente; e é classificado pelos médicos não por níveis de “gravidade”, mas por tipos, que se diferem de acordo com a área em que surgem:
. Tipo I: Acúmulo de gordura na região dos quadris e glúteos
. Tipo II: Se estende até os joelhos, afetando quadris, glúteos e coxas
. Tipo III: Acúmulo de gordura desde os quadris até os tornozelos
. Tipo IV: Braços também são afetados, além das pernas
. Tipo V: Acomete apenas as pernas (do joelho ao tornozelo)
2 . “É só gordura localizada”
O lipedema não é somente uma questão estética: trata-se de uma doença crônica e progressiva, caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura subcutânea. Com o tempo, pode causar dor ao toque, sensibilidade aumentada, sensação de peso nas pernas, tendência a hematomas espontâneos, fadiga e limitação nos movimentos. Reduzir o problema à vaidade é ignorar sua complexidade clínica.
O lipedema não é somente uma questão estética: trata-se de uma doença crônica e progressiva, caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura subcutânea.
3 . “Basta fazer dieta e exercício”
As células de gordura associadas à doença são diferentes da gordura comum e não respondem aos métodos convencionais de emagrecimento. É por essa razão que, mesmo após uma perda de peso considerável através de dieta e exercícios, a desproporção corporal permanece: enquanto o tronco emagrece, as regiões afetadas conservam seu volume.
Isso não quer dizer que a adoção de hábitos saudáveis não seja fundamental — muito pelo contrário, eles são essenciais para a saúde como um todo, e podem até mesmo atrasar o avanço da condição. Contudo, sozinhos, não são capazes de resolver o lipedema. A abordagem da doença é interdisciplinar e requer a colaboração de diversos especialistas, como cirurgiões plásticos, endocrinologistas, nutricionistas e cirurgiões vasculares, para um tratamento eficaz.
4 . “Lipedema e obesidade são a mesma coisa”
Lipedema e obesidade são condições distintas, embora possam coexistir, apresentando características, causas e tratamentos diferentes. Na obesidade, o acúmulo de gordura é generalizado e proporcional. No lipedema, contudo, a assimetria é uma característica marcante: o tronco pode estar normal ou até magro, enquanto pernas e/ou braços apresentam acúmulo desproporcional de gordura.
Outras diferenças importantes incluem:
. Sinal do manguito ou do garrote: Acúmulo abrupto de gordura nos tornozelos e/ou punhos, que cessa subitamente, poupando pés e mãos. Frequentemente confundido com inchaço.
. Textura da pele: Irregular, com aspecto de “casca de laranja”.
. Hematomas: Tendência à formação de manchas roxas com facilidade.
. Pés e mãos: Mantêm tamanho normal.
5 . “A cirurgia é puramente estética”
A intervenção mais eficaz, principalmente em casos avançados nos quais a dor não responde a tratamentos conservadores e a limitação funcional se intensifica, é a lipoaspiração especializada. Quando bem indicada e executada por uma equipe experiente, a cirurgia é capaz de reduzir o volume de gordura afetada, aliviar os sintomas e aprimorar a mobilidade, devolvendo a qualidade de vida das pacientes.
Ainda uma condição pouco conhecida e discutida, é fundamental abordar o lipedema com clareza e embasamento para desmistificar a doença e aumentar sua visibilidade. Quanto mais informação disponível, maiores as chances de um diagnóstico precoce e de um tratamento eficaz, humano e respeitoso.
{Fotos: Marta Dzedyshko e Polina Tankilevitch / Pexels}




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