Simplicidade, praticidade, leveza. Produtos para a vida real.

Produtos para a vida real.

Compre aqui!

Saudade do que eu não sabia

25/11/24
Saudade do que eu não sabia

Entre os sintomas da menopausa que pioram a minha qualidade de vida, o mais cruel deles é o meu algoritmo. Não há insônia, mau-humor ou brainfog capaz de competir com o inferno de ser drasticamente interrompida, em plena gargalhada depois de um meme delicioso, por um vídeo em tom de ameaça informando que os ingredientes da minha alimentação estão sendo ingeridos na ordem errada, que eu jamais aprendi a preparar um brócolis, que um pedaço de mamão pode ser um lobo em pele de cordeiro se escolhido para quebrar o meu jejum.

Comer sempre foi um dos meus grandes prazeres na vida, e eu não preciso ingerir quantidades absurdas para isso. Mas as redes sociais atropelam diariamente o meu apetite, com um excesso (fantasioso) de realidade. Comer se tornou uma equação, cujo resultado sempre subtrai o prazer. Tomar meu café expresso de estômago vazio é começar o dia digerindo uma xícara de culpa — sem açúcar nem adoçante. Carboidratos me espreitam por todos os cantos, de olho na minha fome. Proteínas se escondem, e preciso delas. Variar o café da manhã é um esporte radical, principalmente se escolho dar uma olhada na timeline enquanto tento conjugar o verbo saborear diante de um pão sem glúten. A tarefa de me alimentar tem se tornado indigesta.

Se por um lado as redes sociais nos enfiam goela abaixo modelos nocivos de perfeição, por outro lado, parece raríssimo encontrar uma refeição perfeita. Tento preparar os pães leves e aerados com apenas dois ingredientes, como no vídeo que passou pelos meus olhos, finalmente apresentando uma receita de pão saudável pra fazer com o pé nas costas. E o que descubro é a fórmula infalível pra rasgar dinheiro e jogar no lixo uma goma feita de farinha de aveia e iogurte grego (que, aliás, nunca me apeteceu).

E há sempre alguém mais bem informado prestes a me contar o que, mesmo aos 54 anos, ainda não sei sobre os efeitos adversos da beterraba. Como disse a escritora Marguerite Yourcenar, “toda felicidade é uma forma de inocência”.

De olhos e ouvidos voltados para fora, nos tornamos incapazes de escutar o que o nosso corpo diz

Se ainda ontem sequer falávamos sobre a menopausa, minha impressão é a de que hoje não existe outro assunto. Nem o indiciamento de um ex-presidente e dezenas de comparsas consegue silenciar os médicos ansiosos por nos contar sobre os últimos estudos acerca do poder de uma colher de vinagre antes das refeições.

Acontece que viver assim ficou chato. Não há quem deseje uma vida longa com tanta tensão pra escolher entre um pedaço de melão e um ovo quente pra começar o café da manhã. Se é que ainda é considerado saudável, a velha máxima de comer uma maçã por dia me mantém longe dos médicos ou bem mais longe da alegria?

Olho para as frutas e legumes com desconfiança, prevendo seus perigosíssimos ingredientes ocultos atentando contra minha longevidade. Lactose e glúten já foram condenados há anos, mas a cada dia surgem novos bandidos da alimentação. E assim, nem o trivial bom-dia está garantido.

Não bastasse isso, como saber quais dessas informações são verdadeiras? Me peguei viciada em pesquisar estudos científicos sobre alimentação no Google, e agora a nutrição atravessa também minha agenda e minha rotina de trabalho — que não é na ciência, e sim na comunicação.

Recomendo, para uma boa menopausa: pratos coloridos, exercícios regulares e algumas horas diárias da mais serena ignorância

E um belo dia, entre um post e outro, leio a notícia sobre uma senhora de 105 anos, cujo segredo para uma vida longa é “ser solteira e tomar muita cerveja Guinness”. 

Passar pela menopausa é mesmo um desafio. Que pode, sim, ser amenizado pela informação a que hoje temos acesso. Mas, se existe uma palavra que transita bem por todas as áreas, é a moderação. Entre não tocar no assunto e não parar de falar sobre ele existe uma distância. Essa overdose de informação, alerta e aviso envenena mais que os conservantes dos ultraprocessados.

De olhos e ouvidos voltados para fora, nos tornamos incapazes de escutar o que o nosso corpo diz. Desligamos nosso radar interno, aquele que nos impulsiona a um ato fora do script, mas carregado de vida. Na minha gravidez, eu tinha desejos repentinos (e numa frequência inédita) por comida chinesa. Não tenho pesquisas que o comprovem, mas sei: meu corpo pedia o que precisava para seu bem-estar, durante aquele período em que outra vida habitava ali, além da minha. Como explicar que as câimbras na panturrilha esquerda, que sempre me acometiam, e das quais o pai do Francisco me salvava, simplesmente cessaram depois que ele já não estava mais aqui? Será que a dor do luto em plena gravidez era tão grande, que me impedia de notar o enrijecimento dos músculos? Como explicar que, ao sair do consultório depois da última visita ao meu obstetra, em que ele previu que o nascimento ainda levaria alguns dias, tive o ímpeto de ir almoçar num restaurante vegetariano que eu raramente frequentava, o que operou uma limpeza intestinal perfeita antes do parto normal, que aconteceria poucas horas depois?

Somos o que comemos, é verdade, mas somos também a diversão e arte, como diriam os Titãs. Necessidade, desejo. O que será de nós sem o desejo?

Recomendo, para uma boa menopausa: exercícios regulares, muita hidratação, um sono reparador, pratos coloridos na hora das refeições, e algumas horas diárias da mais serena ignorância.

Cris Pàz é colunista do Dia de Beauté, onde publica mensalmente sobre beleza e longevidade. Publicitária premiada e escritora com oito livros publicados, ela nasceu em 1970 e é uma das precursoras da produção de conteúdo digital no Brasil. Colunista da rádio BandNews FM de BH, comanda o podcast 50 Crises (entre os destaques de 2020 no Spotify Brasil) e traz novos olhares sobre saúde mental, protagonismo feminino, maternidade, moda e longevidade por meio de suas redes e palestras.

{Fotos: Anna Shvets e Alexy Almond / Pexels}

Comentários

(Veja Todos os Comentarios)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias:
Tags: