Como engajar sem se vulnerabilizar? Uma reflexão sobre os limites da exposição nas redes sociais

07/03/22

No século passado, lá por volta de 2008 mais ou menos, quando eu ainda era um projeto de jornalista de moda, me lembro dos blogs começando a ganhar uma nanoaudiência e de pensar que quem mostrava mais, se destacava mais também. Quanto mais a pessoa (normalmente uma moça bem nascida sem faculdade completa ainda) postava e mostrava sobre a sua vida, mais acessos e mais notoriedade.

O tempo foi passando, os blogs viraram poderosos perfis de Instagram e a lógica se comprovou eficiente, só que com outras grandezas. Enquanto os números de seguidores ainda cresciam em progressão geométrica, vimos centenas se transformarem em milhares e depois em milhões de seguidores meio que da noite para o dia, movidos sempre pela alimentação constante de viagens mostradas no detalhe, escolhas de roupas e acessórios em zoom, arrumação minuciosa de gaveta de carrinho de maquiagem e por aí vai – pura diversão!

O tráfego virtual de carrinhos de acrílico foi ficando cada vez mais intenso, e veio então a necessidade de exposição de um pouco mais do que apenas a prateleira de sapatos organizada em degradê. Situações de vulnerabilidade, relatos emocionados, choros e risos intensos passaram a ganhar mais likes, mais seguidores, mais engajamento. 

Hoje, em pleno 2022, sabe-se que o marketing de influência irá bater recorde e movimentar alguns bilhões de dólares a mais, além de se consagrar como o grande responsável pela ascensão e declínio de marcas e mercados inteiros, vide seu infinito potencial comercial. Para vender, no entanto, é preciso emocionar, e nada mais emocionante quanto a entrega total por parte de quem produz conteúdo.

Acredito que precisamos de cara estabelecer o limite entre o que é sensacionalismo autocorrosivo e o que é conteúdo.

Quem entrega mais, vende mais, mas também precisa dar mais satisfação e estar mais aberto a críticas e julgamentos. Da cor da calcinha à posição política, tudo é insumo para uma audiência que, não sem razão, se sente no total direito de cobrar o que quiser. Ué, mas foi você mesma quem abriu essa porta, ou não foi?

Como espectadora da revolução que se deu enquanto me criava dentro de uma prestigiada revista de moda, vejo hoje aquelas mesmas personagens que não tinham problema algum em mostrar a intimidade de lugares e eventos que pouquíssima gente tem acesso, se fechando em suas próprias vivências, revelando cada vez menos, por vezes até anunciando o distanciamento momentâneo da rede social em nome da preservação de sua saúde mental.

Falando nela, os mais de dois anos de isolamento social não colaboraram – por um lado, a vontade de encontrar pessoas, de se reunir em petit comitê (ou não tão petit, mas pouco importa) etc. Por outro, a polícia da rede social, que não perdoava nem a simulação de uma entrada no elevador sem o uso de máscara com filtragem mínima requerida para combater a disseminação do coronavírus.

Não sei se você reparou, mas a pandemia tornou radicalmente distante a realidade que aparecia nas redes daquela que era, de fato, vivida por aquelas pessoas. Criaram-se dois mundos, duas experiências de vida em que a verdade, obviamente, mora bem longe do feed do Instagram. Mas como engajar sem revelar?

Dividir experiências é uma coisa. Se colocar em situação de vulnerabilidade só porque é isso o que parece que você tem que fazer, é outra.

Entregar-se por completo para milhares de desconhecidos é cruel mesmo – nenhum ser humano quer discutir publicamente o divórcio, a doença de um familiar, ou mesmo aparecer esbanjando bom humor quando, na verdade, não tem vontade sequer de sair de baixo das cobertas. Como novíssima entrante nesse mundo da influência – e já escolada frente às minhas observações pessoais sobre o caminho traçado por minhas colegas veteranas de profissão -, acredito que precisamos de cara estabelecer o limite entre o que é sensacionalismo autocorrosivo e o que é conteúdo. 

Mostrar serviço, revelar pensatas, dividir experiências é uma coisa. Escancarar relacionamentos, expor os filhos gratuitamente e se colocar em situação de vulnerabilidade apenas porque é isso o que parece que você tem que fazer, é outra completamente diferente.

Acredito em um equilíbrio que, claro, precisa ser reforçado e exercitado diariamente, caso contrário o remédio terá que vir da própria doença, ou seja, chegar no limite em que apenas o afastamento trará paz para quem sucumbiu ao círculo vicioso da exposição em excesso. O que eu penso da máxima que anda super atual “viver primeiro, postar depois”? Certamente eu quero viver, mas quero postar também! 

Barbara Migliori é arquiteta de formação, ex-diretora de moda da Vogue, revista para a qual trabalhou por 15 anos, e atualmente produz conteúdo de moda independente através dos programetes idealizados para as redes sociais Dicas Bárbaras, Bê-á-Bárbara, barbarECO e EUbarbara, além de assinar uma coluna fixa para o DDB.

{Fotos: cottonbro e Julia M Cameron / Pexels e reprodução Instagram @barbaramigliori}

Comentários

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5 replies on “Como engajar sem se vulnerabilizar? Uma reflexão sobre os limites da exposição nas redes sociais”

Queremos Barbara toda semana!!!! Tá bom essa ou é cobrança que ultrapassa os limites? ;) ótimo texto!

Sempre segui a Vic e o diadebeaute; amooo🥰! Mas a Bárbara é demais!!! Gosto muito da pessoa madura e inteligente que é! Ela passa seus conteúdos, de moda, de vida, de organização, com VERDADE. Virei fã!!!!!❤️❤️❤️❤️❤️

Maravilhoso texto, como tudo o que a Bárbara escreve! Só acho que vale a correcão que 2008 não é século passado :)

Amei o texto, super parabéns pelas colocações diretas e ponderaras sobre o caminho saudável das mídias sociais 👏

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