15 anos para alcançar a(s) luz(es)

07/01/22

Nasci loira mel de olhos verdes; aos cinco anos já tinha a cabeleira toda castanha e, por alguma motivação que até agora não entendo muito bem, achei que aos 17 precisava fazer minhas primeiras luzes no cabelo.

Comecei tímida, um fio aqui, outro ali e, quando vi, com 20 e pouco já passava pelo menos seis (SEIS!) horas no salão de beleza pelo menos duas vezes por ano para me sentir mais bonita com toda aquela “loirice” que não me pertencia. A sensação do assistente do cabelereiro estrelado me mostrando o resultado final de um processo tão demorado, com os cabelos cuidadosamente escovados, em frente ao espelho iluminado artificialmente para deixar qualquer clique digno do feed do Instagram, era impagável. Em SEMPRE me senti maravilhosa nessa hora. Daí chegava em casa, via todo aquele volume de fios que mais pareciam de náilon indo embora na primeira lavagem, lamentava toda vez que tinha que secar com secador na praia – não existe cabelo com luzes secando ao vento – e pensava: “puxa vida, que pena não ter outra opção”.

E lá se foram quinze anos achando que não tinha opção, os mesmos quinze anos que levei para descobrir quem eu era. Enquanto fui loira casei de véu, grinalda e escola de samba com o marido errado, me apaixonei perdidamente por outros tantos – sempre errados –, vesti roupas erradas, agi de maneira errada em várias frentes e me sabotei incontáveis vezes.

Aos 35 dei à luz a minha primeira filha, já ao lado do marido certo, escolhido segundo critérios que levei 15 anos para definir como os adequados para coordenar com a pessoa que eu, de fato, sou. Isabel nasceu moreníssima e a minha cara. Quando tinha um ano me olhava no espelho ao seu lado e algo parecia fora do lugar: era a cabeleira clara, artificial, desconectada dos nossos traços em comum. Ela tão pura, tão ela, e eu tão forjada. Ao mesmo tempo, conheci um profissional de corte (um artista, pessoa extremamente sensível, conhecido por Luciano de Paris) que se criou na França e, recém-chegado ao Brasil, não entendia por quê as brasileiras gostavam tanto de ter todas a mesma cara. Me senti, claro, mais uma delas e, já consideravelmente mais segura e empoderada, decidi encerrar as longas sessões de transformação no salão.

Passei mais de um ano deixando a raiz crescer, em contraste ao bloco debotado, e cultivei uma juba que quase alcançou a cintura. Sem as luzes, aos poucos ia me reconhecendo com a moldura castanha que ganhava vez, mas ainda não me sentia pronta para me livrar definitivamente dos resquícios da minha vida pregressa.

Até que, um dia, no segundo semestre de 2021, me deparei com uma foto minha de costas que evidenciava o cabelo bifásico. Marquei corte para o dia seguinte e desejei não apenas ser integralmente morena como também eliminar metade do volume capilar. Durante todo esse período de (re)descoberta fui tomando decisões mais ou menos profundas que não combinavam com um apêndice tão artificial quanto pontas com luzes. Pensava sempre que, se tivesse que acordar em uma ilha sem absolutamente nenhum recurso, será que me sentiria bonita mesmo assim?

Quanto mais manutenção a gente precisa para se sentir bela, menos beleza há. Foi essa a conclusão a qual cheguei – cuidar da base, portanto, é mais valioso que lapidar a superfície. Hoje em dia passo pouquíssima maquiagem, acho impensável colar um par de cílios postiços no olho, me dedico quase que diariamente a um treino de musculação que vai me garantir saúde e vitalidade por algum tempo, passo todos os melhores e mais naturais cremes que a tecnologia já produziu e como que nem gente: arroz, feijão, legumes, grãos e alguma proteína.

Ajuda muito ter um marido que, desde o primeiro dia de namoro, falou que eu ficava bonita de óculos de grau, sendo que, desde os 12, eu uso lentes de contato porque nunca me aceitei com uma armação no rosto. Sobre o motivo não bem entendido que me levou a tomar a decisão de pintar quando mal sabia o que queria da vida, acho que tem a ver com agradar aos outros e se encaixar em padrões tidos como vencedores em vez de buscar em mim as verdades que me cabiam. Foram 15 anos de um processo que, por acaso, fica evidente na cor dos meus cabelos.

Em 2020, com o nascimento do meu segundo filho, Antonio, inacreditavelmente loiro, surgiram também os primeiros fios brancos. Lamentei não ter podido viver a liberdade dos fios virgens por muito tempo, pois optei por cobri-los do tom mais parecido com o original possível, mas isso sempre pode mudar – difícil mesmo será voltar para as luzes.

Barbara Migliori é arquiteta de formação, ex-diretora de moda da Vogue, revista para a qual trabalhou por 15 anos, e atualmente produz conteúdo de moda independente através dos programetes idealizados para as redes sociais Dicas Bárbaras, Bê-á-Bárbara, barbarECO e EUbarbara, além de assinar uma coluna fixa para o DDB

{Fotos: reprodução Instagram @barbaramigliori}

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14 replies on “15 anos para alcançar a(s) luz(es)”

Ainda não tive coragem de mudar…ficar sem luzes! Fiquei muito tempo sem retoque na raiz ano passado, mas os cabelos brancos estavam.me incomodando…foi quando saí,. comprei as coisas e minha filha fez na raiz! Ficou muito bom! Hehe!! Bjo da Pri 😘😘😘

Amei demais ler essa matéria, estou em um processo pra desapegar das luzes também, apesar de ter nascido loira clara, com 18 anos resolvi começar a dar luzes e assim durante 18 anos. Hoje com 36 anos, decidi deixar meu cabelo natural, não sei se vou conseguir, mas sigo firme aqui. Esse post me inspirou, obrigada DDB 💕

Me identifiquei logo no início da sua transformação, me inspirou, e hoje também sigo no processo de voltar a origem capilar. Você me ajudou a entender e ver esse outro lado que infelizmente copiamos sem pensar. Me sinto em processo de libertação! Obrigada

Vou seguir a Barbara! Me identifiquei muito no seu texto! Comigo foram os cachos, mas a maternidade nos da a oportunidade de nos ver natural novamente.

Parabéns pela matéria. Acho muito difícil essa questão dos fios brancos. Não consigo ignorá-los tb. Parece que o problema são os outros, mas sinto q fazemos parte deste grupo q não aceita bem o envelhecimento. Sequer aprovamos nossa imagem assim, como aguardar isso dos demais, não é mesmo?! Uma pena! Que a gente se liberte um dia!

Olá Bárbara,
Parabéns pela coragem de mudar e escolher aquilo que é essencial. Valorizar o genuíno e investir em sua manutenção e melhorias é um processo longo de amadurecimento, escolhas e deixar cair o desnecessário.

Simplesmente A MELHOR leitura do ddb de todo ano de 2021 e 2022(até aqui). Muita sinceridade, verdade, pureza e (aleluia!) sem querer ditar imposições disso ou daquilo. Foi um alívio lê-la nesses tempos de tantas regras e normas. Parabéns pelo belíssimo depoimento que fez tanto bem a minha alma.

O mais lindo nesse depoimento é o “despir /se” para uma verdade! Parabéns Barbara pela transparência! Amei!!!

Amei o texto!!! Nada como o amadurecimento pessoal e autoconhecimento!!!
Já seguia a VIC, o DDB e agora tb sigo a “Bá”!!!
Amo as duas ❤️❤️

Oi Bárbara
Adorei seu texto e sua história, ou causa.

Tb padeço do mesmo sofrimento no salão e ainda uso mega, pq tenho pouquíssimo cabelo…. Enfim…. Já sou famosa no salão por ter pânico do tempo q preciso estar lá.

Por outro lado, te acompanho desde a Vogue, já maratonei os Dicas Bárbaras, mas sempre te achei meio presa, tvz seja pela gestão maluca do passado da Vogue… Me vem na mente uma passagem que vc aparece de motorista da Miranda Priestly… Socorro! Qta loucura passamos!
Feliz de ver vc e a Vic juntas, amo ela!
Bjs e Parabéns, uma beleza de texto!

Que texto lindo! eu amo histórias assim e acho incrível que o nosso auto-cuidado é muito mais do que vaidade, mas é um aprendizado de como nos vemos e quanto nos importamos com a opinião dos outros. e achei lindo a frase “Quanto mais manutenção a gente precisa para se sentir bela, menos beleza há”. acho super válido e também quero aplicar pra minha vida. e um dos passos foi a liberdade de sair sem maquiagem. uns anos atrás eu não conseguia me imaginava sair sem máscara. a pandemia e a máscara me ajudaram, mas hj em dia não me sinto mais tão mal se eu sair com a cara quase limpa (corretivo e rimel pelo menos)

Que bacana ler o texto da Barbara, eu por anos alisei meu cabelo e agora no terceiro filho, querendo mais praticidade pra minha vida e vendo meu cabelo em duas texturas, decidi cortar e assumir meu cabelo afro e me identifico em vários pontos do texto, que bom podermos ver felicidade no simples, no que é de verdade, em ser como viemos ao mundo e os filhos nos aproximam de nossas raízes.

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