Larguei a vida na cidade e me mudei para a Chapada dos Veadeiros: um relato

18/08/21

Quem negaria que a vida hoje em dia é algo incrivelmente complexo? Nossa civilização contemporânea é um empreendimento multifacetado ao extremo e, mais do que nunca, necessitamos dar forma à nossa vida de maneira consciente – e não apenas seguir no fluxo automático das coisas.

Mas enquanto estivermos vivas, podemos – e devemos – agir. A escolha de permanecer inativa também é um tipo de ação, uma postura que, como qualquer ação, têm consequências, tanto desejáveis como indesejáveis. E foi diante deste raciocínio que decidi mudar radicalmente a forma como vou viver daqui em diante.

Eu me mudei para a Chapada dos Veadeiros, realizando um sonho que achava impossível. Mas a capacidade de sonhar sempre foi minha mola propulsora – o querer é uma força magnética da qual emanam poder e suficiência. Acredite: se você tem a capacidade de sonhar, também aprenderá a concretizar.

Não vou dizer que está sendo fácil… Como mulher, negra, empreendendo sozinha e com pouquíssimo dinheiro, morando numa cidade turística, dá para imaginar as dificuldades. Mas a verdade é que para quem vive aqui no dia-a-dia, é simplesmente uma cidade do interior do nordeste goiano. Me mudei para uma casa bioconstruída, inacabada, sem energia, na zona rural a 12 km de Alto Paraíso.

Com a mudança e a pandemia, tive que me reinventar profissionalmente e me desprender de qualquer pré-conceito no que se refere à como vou garantir a minha sobrevivência aqui. Já fiz “freela” numa empresa de cosméticos naturais, faço macramê, pequenos artefatos em madeira e exponho na feira da cidade aos finais de semana, além de produzir conteúdo para minhas redes sociais e dar aulas online de aromaterapia.

Também tive que adaptar minha rotina, para aproveitar ao máximo a luz natural, já que ainda não tenho energia elétrica aqui em casa. Acordo por volta das 5:30 da manhã, faço minha prática de yoga/meditação, faço meu desjejum, cuido da organização da casa e da horta que comecei a cultivar. Caminho diariamente 2 quilômetros até o vizinho mais próximo, para carregar os eletrônicos e me comunicar com minha mãe (se não falar com ela todo o santo dia, ela já pensa que aconteceu algo comigo). Aproveito a energia e a internet para fazer os trabalhos online, usar as redes sociais e  estudar, pois estou no finalzinho de um curso de formação em Hatha Yoga.

Quando vai chegando o fim do dia fico com o olho no relógio, pois o banho frio antes da 16 horas é até gostoso, mas depois desse horário me faz sentir saudade da cidade (só nesse momento). Anoitece e já separo a lenha para a lareira, para me aquecer nas noites frias que fazem aqui, espalho algumas velas pela casa, o que a deixa com um arzinho romântico, e com  ajuda da lanterna do celular, aproveito para ler, coisa que tenho feito bastante aqui.

De segunda a quarta me dedico à casa, fazendo intervenções e melhorias para que ela fique cada vez mais habitável – agora estou fechando todas as brechas, pois tem um saruê entrando na cozinha e comendo tudo que vê pela frente (risos). Quinta e sexta me dedico à criação das peças que vendo na feira aos finais de semana.

Faço minhas idas à cidade de bicicleta na maioria das vezes, pois acreditem, a gasolina aqui está quase sete reais! Então só uso o carro quando participo da feira ou se tenho que trazer algo muito pesado de lá.

Nosso modelo de sociedade (ainda) coloca nós mulheres em caixas do que pode e não pode, do que conseguimos realizar sozinhas ou não, e ocupar este espaço e ressignificar minha existência é um ato de bravura, resistência e muita resiliência. Porque sim, nós podemos e podemos muito!

Olhando para cada obstáculo dessa transição, de uma vida na cidade para uma vida simples no campo, me pego sempre pensando nessa frase: “Que as dores do caminho não nos impeçam de enxergar com nitidez a beleza da jornada”.

Aqui estou aprendendo cada dia mais a lidar com a energia dos novos ciclos, a trilhar o caminho do essencialismo, a viver de forma conscientemente presente, aprendendo a caminhar no entendimento da busca pela força interior, para trabalhar a transformação individual que tanto carece ser refletida no coletivo. Não é só uma mudança física, e sim um retorno ao que verdadeiramente importa nesta vida, que é viver de forma autêntica, sustentável e conectada com o todo.

Deixo vocês com esse pensamento: aproveitemos a oportunidade que a vida nos apresenta nesse momento para fazer um trabalho interior, talvez um dos mais importantes da nossa existência, e enxergar o que realmente queremos.

{Fotos: reprodução Instagram @cassandravelloso}

Comentários

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5 respostas em “Larguei a vida na cidade e me mudei para a Chapada dos Veadeiros: um relato”

Desde una plataforma conocida. Cassandra se aventura cual Robinson Crusoe, a un mas de selva y dificultades, sorteando y alentando a aquellos pobres de espiritu, a tomar su opcion de vida.
Asi comonsu antecesora, que vio su futiro en un sueño, Cassandra los contruye, y utiliza cada dificultad como palanca para un nuevo impulso hacia adelante.
Dani H

Que história encantadora, tenho esse sonho de me mudar para uma cidade mais calma, sua história me enche de coragem e esperança …
Obrigada por compartilhar.

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