Makes de uma história travesti

15/06/21

Dopada de adrenalina e me sentindo livre. Foi assim que saí de uma farmácia depois de comprar minha primeira máscara de cílios. O que pra muitas meninas cis é algo comum e corriqueiro, pra mim veio como a realização de um desejo proibido. As camadas eram contadas pra não exagerar e não revelar meu segredo e minha nova obsessão por make.

Eu tinha 19 anos quando embarquei em um intercâmbio. Com um dólar favorável e longe de quem poderia me julgar, consegui ter minhas primeiras máscaras de cílios de grife: Chanel Inimitable e Diorshow Blackout. Um pouco depois, decidi me aventurar nas sombras, bases, pincéis de maquiagem… Gastei meu primeiro salário e (quase) dormia abraçada com o brilho dourado da Honey Lust da MAC, com a base Dream Mousse da Maybelline, com o pó da Covergirl. E pra que? Pra deixar tudo escondido no armário, junto com quem eu sou.

“Com a ajuda da maquiagem, finalmente me permiti viver o território feminino como sempre imaginei. Sendo eu.”

Era final dos anos 2000 e voltei para o Brasil. Queria poder me libertar e usar todas as makes e roupas que tinha vontade, mas precisava manter todo esse desejo escondido. As discussões de gênero não rolavam como hoje, e era quase como viver com uma camisa de força. No dia a dia, o coradinho do blush dava aquele ar de saúde. Nas minhas mãos, tinham só duas unhas timidamente pintadas. Na terapia, as conversas chorosas borraram o discreto esfumado marronzinho.

Sim, eu passei por muitos períodos de medo, me escondi e tentei ser aceita, sem sucesso. Mas não posso deixar de reconhecer meus privilégios: não fui expulsa de casa, não vivi na rua, não larguei a escola, como muitas meninas trans. Você sabia que as estimativas mostram o abandono dos estudos em 82% das pessoas trans ainda na educação básica? Nem 0,02% chegam às universidades. Eu cheguei e hoje, vejo a importância de lutar para que muitas outras também tenham essa oportunidade (leia mais aqui e aqui).

Perto de fazer 30 anos, as máscaras de cílios já tinham ganhado muitas outras camadas, as unhas todas pintadas, e o iluminador brilhava. Cada passo no autoconhecimento foi marcado por um cosmético novo e era um sopro de liberdade. Depois, um retorno de Saturno porreta e um mergulho em mim mesma me fizeram me entender como travesti. O relógio da idade bateu junto com a minha vontade de me libertar e o último item a entrar no meu nécessaire foi o batom vermelho. Finalmente, me permiti viver o território feminino como sempre imaginei. Sendo eu.

Aqui embaixo tem meus favoritos de maquiagem. Alguns, se mantêm invictos desde os meus 17 anos. Outros, ganharam espaço cativo na penteadeira ao longo do tempo.

Lip
Gloss
Mariana Saad by Océane
Aqui
Máscara de Cílios Inimitable
Chanel
Aqui
Base líquida
Stay Naked
Urban Decay
Aqui
Paleta de Sombras Shadow X9 Burgundy
Mac
Aqui
The Colossal Volum'Express
Maybelline
Aqui
Base Nutrição
Ativa
Quem disse, Berenice?
Aqui
Batom Rouge Interdit 12
Givenchy
Aqui
Blush Cream
Fenty Beauty
Aqui

Gui Takahashi é jornalista e criadora de conteúdo. Adora falar de beleza, moda, comportamento e sociedade, principalmente refletindo sobre esses assuntos e dividindo experiências pessoais.

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